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Comunicação Alternativa no Projeto Criativos da Escola

Texto de Mariana Komesu


Tudo começou em 2017, quando Jhanni Melissa Ribeiro, dentista da saúde pública na cidade de Lins-SP e mãe de um garoto no espectro autista, participou de um curso de Comunicação Suplementar e Alternativa (CSA) promovido pela Dra. Grace Ferreira Cristina-Donati. Durante o curso, Jhanni se deu conta de que a cidade de Lins não dispunha dessa ferramenta em nenhum local público, nem mesmo nos estabelecimentos de saúde. Ao retornar, compartilhou essa percepção comigo, Mariana Komesu, que sou sua amiga e professora bilíngue do Centro Educacional Nossa Senhora Auxiliadora, e com a gerente de sua unidade básica, Viviane Fernandes, no ensejo de que pudessem projetar algo para equipar a UBS com a CSA. No entanto, devido a muitas outras demandas, a ideia ficou guardada.

A oportunidade para tirar a ideia da gaveta veio em 2021, quando fui incentivada pela coordenação pedagógica a analisar o projeto do então 4º ano do Ensino Fundamental, liderado pela Professora Daniela Laura, a fim de inscrevê-lo no desafio do Criativos da Escola, criado em 2015, cujo principal objetivo é encorajar crianças e adolescentes a transformarem suas realidades, reconhecendo-os como protagonistas de suas próprias histórias de mudança e fortalecendo seu efetivo direito à participação.

O protagonismo, a empatia, a criatividade e o trabalho em equipe são os pilares do Criativos da Escola e, a partir deles, são desenvolvidas ações de formação, reconhecimento e valorização voltadas a estudantes e educadores(as) que desejam transformar suas comunidades.

O Criativos é um programa do Instituto Alana e faz parte do Design for Change, movimento global que surgiu na Índia e está presente em 52 países, inspirando mais de 2,2 milhões de crianças e adolescentes ao redor do mundo.

Alunas Mariah, Luísa e aluno Rodrigo na atividade de fixar um fluxograma com pictogramas para explicar a tomada de decisão sobre o uso de máscara. (Pictogramas Arasaac)


O projeto do 4º ano tinha como ponto central a solidariedade e a caridade. As crianças foram estimuladas a refletir sobre a diferença destes dois valores e pensar em formas de colocá-los em prática. A partir daí, eu, que também estou no espectro autista, pensei em estimular meus alunos a pensarem sobre a comunidade autista presente na escola e na cidade, suas demandas e necessidades. Para que as crianças tivessem clareza do que é viver no espectro, pedimos a participação do adolescente Daniel Augusto de Jesus Xavier, que tem TEA (Transtorno do Espectro Autista) e que se disponibilizou para falar sobre suas características, sua personalidade, suas dificuldades e desafios cotidianos.

Após rodas de conversas e pesquisas sobre TEA e a constatação de que há dificuldades de comunicação mesmo entre autistas verbais, as crianças se conscientizaram da carência de recursos que facilitam a comunicação de pessoas tanto as que vivem dentro do espectro autista como as que têm outras deficiências e condições que as impendem de se expressarem por meio da fala.

Compartilhamos com a Jhanni a intenção das crianças de colocarem o projeto de sinalização com pictogramas em lugares públicos e assim tivemos a UBS como o primeiro local público disponível como ponto de partida para essa ação. Após o posto de saúde do Rebouças em Lins-SP, sinalizamos a escola particular CENSA e as crianças fizeram um trabalho de conscientização sobre CSA e sobre TEA nas salas de aula das outras turmas, explicaram a necessidade do uso de imagens tanto para comunicação como para organização de pessoas com autismo.

Agendamos a visita para que as crianças pudessem instalar as placas, escolhemos três alunos para representarem toda a turma do 4º ano, as alunas Mariah e Luísa Elias juntamente ao aluno Rodrigo; durante esse momento, as crianças se reuniram com alguns funcionários da UBS, bem como com a Jhanni e a gerente Viviane, explicaram o propósito da comunicação alternativa nos ambientes públicos e agradeceram a oportunidade de começarem esse projeto ali.


ALuno Rodrigo fixando pictograma na porta da sala da Dentista

Aluno Rodrigo fixando uma ficha com pictograma de dentista no consultório odontológico da Unidade Básica de Saúde. (Pictograma Arasaac)


No dia 10 de dezembro de 2021 nosso projeto foi escolhido e premiado entre 311 de todo o Brasil. Surpreendidos positivamente com a premiação, passamos a pensar em como poderíamos dar continuidade ao Projeto de forma que, além de equipar alguns lugares públicos da cidade com as placas de CSA, pudéssemos motivar outros estabelecimentos públicos e/ou privados a fazerem o mesmo. Para além disso, nossa intenção é, a partir desse trabalho, informar e conscientizar a população sobre a existência e as necessidades da população com Transtorno do Espectro Autista, visando a criação de uma sociedade mais inclusiva em nossa cidade.

Com vistas a abrir caminhos para realizar o desejo dos alunos envolvidos de “sinalizar mais locais na cidade”, a equipe de adultos envolvidos pensou na Praça da Auxiliadora. É um local público, bem próximo ao CENSA, onde muitas famílias se reúnem especialmente aos finais de semana, para levar seus filhos ao parquinho e desfrutar das guloseimas que são vendidas nos trailers ao redor da praça. Seria uma oportunidade de atingir um público maior, especialmente de crianças com TEA que eventualmente utilizam aquele espaço, bem como de mostrar para a população em geral a existência da CSA e sua aplicação.

Em pesquisas, verificamos que duas cidades no Brasil já sinalizaram parquinhos: São Paulo - SP e Porto Alegre - RS. Nos inspiramos nas placas que eles utilizaram e fomos atrás de novas parcerias para orientação técnica. A fonoaudióloga Dra. Grace Cristina Ferreira-Donati, com vasta experiência em TEA e Comunicação Suplementar Alternativa, se uniu a nós para nos dar toda a orientação necessária à ampliação do projeto.

Até o momento, iniciamos a busca de contatos para autorização da colocação de placas na referida praça, e realizamos os orçamentos para a confecção das placas.

Pretendemos realizar a sinalização da praça juntamente com um evento em que possamos envolver a todos, crianças e adultos, para um dia de conscientização sobre TEA e CSA.

Nossa expectativa para os próximos passos é envolver outras crianças da escola e construir novas parcerias de forma que o Projeto possa se estender, envolvendo toda nossa cidade.

Membros do projeto segurando recursos com pictogramas que foram utilizados no projeto. (Pictogramas Arasaac)

E você, querido(a) leitor(a), conhece algo parecido??? Já participou de alguma atividade em prol da comunicação para todos? Conta pra gente nos comentários;-)

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